.8 de jun de 2015

Resenha do livro Sócrates Café – Christopher Phillips


Nome: Sócrates Café
Autor: Christopher Phillips
Editora: CDG
Ano: 2015
N° de páginas: 218




SINOPSE:

Christopher Phillips é um homem com uma missão: reviver o amor do questionamento que Sócrates inspirou há muito tempo, na antiga Atenas. Phillips não só apresenta os fundamentos do pensamento filosófico neste “charmoso” guia chamado Sócrates Café(Sanskrito Editora; 220 pág., R$ 29,90), como também lembra o que o levou a iniciar o seu programa e recria algumas das sessões mais revigorantes, que vêm a revelar, por vezes, surpreendentes reflexões, muitas vezes profundas sobre o significado do amor, amizade, trabalho, vida, e etc. Em síntese: uma leitura divertida sobre a faísca que acende quando as pessoas começam a fazer perguntas significativas.


O nome do livro é extremamente convidativo e atraente para mim. Tem em si duas coisas que sou apaixonada: A filosofia de Sócrates e café. Não sei passar um dia da minha vida sem tomar pelo menos uma xícara pequena de café.

Quando se ler o nome do livro e dar uma olhada na capa ficamos hipnotizados com a harmonia que o nome tem com a escolha da capa. Uma xícara de café quente com letras gregas em sua cerâmica. Acima o nome Sócrates Café e a frase matadora: “ O delicioso sabor da filosofia. ” Pronto! Isso me levou ao estado de transe imenso. FILOSOFIA...F-I-L-O-S-O-F-I-A! O assunto que comecei a estudar sozinha aos 13anos e até hoje faço estudos independentes dos solicitados da Universidade.

O livro apresenta o empreendimento corajoso do ex-professor de escola pública que trabalha agora com os métodos socráticos em suas discussões em vários lugares nos EUA, que podem ser em lanchonetes, ciber cafés até universidades. O diferente do seu método aqui é a forma como os assuntos aparecem. São PERGUNTAS. A arte de questionar. Indagar. Não acreditar e aceitar respostas prontas e absolutas. Não há “fim” em suas discussões. Os assuntos nunca parecem ter fim. Imagine agora que tudo que você sabe é questionável? Que tudo que aprendeu pode ser FALSO? Isso mexe muito com o ser humano. Parece que o ser humano vive movido por suas incertezas e questionamentos. Como diz George Steiner o ser humano parece amar a incerteza e a procura constante do saber como ele diz “Ter condições de divisar as possibilidades de destruição e mesmo assim aprofundar o debate com o desconhecido não é pouca coisa. ”

Posso fazer uma pergunta? ”

Nesse capítulo o livro começa numa discussão calorosa de Chris num Café na cidade de San Francisco e as pessoas discutem sobre Psiquiatria e sua utilidade pública. “ A Psiquiatria é o estupro da musa. ” A discussão se fundamenta nessa premissa. Para quem desconhece Mitologia Grega Musa é considerada a Inspiração ou simplesmente a Criação ou a Criatividade. Eram ligadas ao deus Apolo. Esse que era o responsável pela produção artística humana.

Quando se fala que a Psiquiatria estupra a musa, se quer dizer como percebemos com a leitura do primeiro capítulo é que essa ciência nos leva a procurar a linha que separa a Sanidade da Loucura. Se relacionamos isso com a Arte veremos que isso é quase impossível de aplicabilidade. As obras-primas da literatura, arte visual, artes plásticas, música, teatro e afins foram feitos em momentos “insanos” ou dados como completamente ilógicos para a maioria da sociedade. Produções artísticas feitas em prisões, exílios, internações em centros de reabilitação mental e tantos outros. Pessoas que morrem em prol de uma causa ou amor universal. Essas são consideradas loucas? O que é loucura? Onde começa a Sanidade e onde ela termina? Será que existe linha segura da separação de loucura e razão?

 Entre várias discussões apaixonadas em vários locais que ocorrem o Sócrates Café, Chris é defrontado com questionamentos acerca de quem era esse filósofo. Sócrates era louco? Por que escolhera morrer do que viver sem questionar? Será possível ser como ele nos dias atuais? Será a Filosofia algo verdadeiramente útil? Entre debates percebemos que a filosofia desse amado e forte filósofo está entranhada em nosso ser. Sócrates morrera em prol de seus valores e crenças, pois percebera que é impossível viver sem se faze perguntas. O espírito humano fora criado para a curiosidade eterna. Nada poderia passar sem ser questionado e criticado.

Imbuído de uma paixão pela honestidade intelectual e integridade moral rara no tempo dele ou em qualquer outro. Ele insistentemente buscou respostas para perguntas as quais não haviam sido feitas antes, tentou solapar pressupostos e crenças convencionais para provocar um pensamento mais cuidadoso sobre temas éticos, instigando incansavelmente a si mesmo e àqueles com quem conservava a buscar um entendimento mais profundo do que constitui uma vida boa. ” (Richard Tarnas sobre Sócrates)

“Onde estou? ”
(Heráclito)

Nesse capítulo somos convidados a entrar em nós mesmo. Todas os encontros do nosso adorado Sócrates Café batem em uma mesma tecla: Lar e Sentimento de Pertencimento. Não sobre onde moramos ou nascemos, mas aquele lugar que nos sentimos pertencentes e criamos laços profundos de correspondência ao lugar, grupo ou pessoa.


Numa sequência de reuniões somos confrontados com diversos temas além dos quais citei acima, entretanto todos se convertem no ato de questionar. Somos convidados a pensar sobre Honestidade quando lemos que os sofistas – como ainda muitos fazem – vendiam “filosofias” prontas para as pessoas. Vendiam seu conhecimento para ganho financeiro e acusavam Sócrates de ser sustentado por amigos ricos, só isso explicaria como conseguia se manter já que não cobrava por seus ensinamos. Somos atraídos pelo sentimento de pertencimento quando Christopher visita uma “igreja” ou congregação que tem em seus membros os mais diversos tipos religiões que vão até os cristãos e terminam nos muçulmanos. É uma reunião espiritual e não um local de divisão e separação, mas a junção de credos em prol da fé ou simplesmente um lugar feito para ser usado como um identificador social. Algo que identifique e distingue essas pessoas do resto do planeta.

Perder a terra que você conhece por um conhecimento maior; perder a vida que você tem por uma vida melhor; deixar os amigos que você amou por um amor maior; encontrar uma terra mais gentil que o lar; maior que a terra. “ (George Webber)

Com as reuniões do Sócrates Café e o crescimento imenso da ideia, Christopher muda de cidade e muda-se para a Califórnia. Entra em crise existencial, essa que percebemos em todo o seu livro. Onde terminou seu casamento e fora atrás de seus sonhos e ímpetos pessoais. A vida o convidava a colocar em prática seus discursos e crenças. Não poderia mais perder tempo com doutrinas e uma vida sem rumo definido e principalmente sem prazer.


Escolhera questionar. Queria ser levado pelo legado de Sócrates. Queria modificar a sua realidade e de milhares de pessoas pelo seu país. Começara sem esperanças, mas agora era famoso e requisitado. Mexia com todos por onde passara e conhecera a intelectualidade e capacidade impressionante de racionar das crianças. Agora fundara o Clube de Filósofos numa escola pública de sua cidade. Conhecera gênios em miniaturas. Seres puros e cheios de perguntas. Fora sempre uma criança em seu pensamento. Só sendo uma criança poderíamos ter um senso de questionamento e uma sede por aprendizado constante e uma paixão ardente por perguntar.

As crianças espantam-se sem parar. Em The making of the modern mind, John Herman Randall Jr. Observou que os indivíduos “cuja infâncias são prolongadas” “ são capazes de continuar aprendendo quando outros chegam aos limites de seus poderes e recursos naturais. ”

Em suas mudanças encontrara um grupo – esse que ele se despede quando muda de estado – que o questionara sobre o que é Amizade? Ser amigo é acrescentar algo ao outro? Uma troca de favores? Será possível uma amizade entre pessoas “boas” e “más”? Esses questionamentos fecham um ciclo de reuniões do ex-professor e agora amante do debate filosófico a la Sócrates.

Segundo Nietzsche, os amigos devem ser educadores uns dos outros. E, se vão ser educadores da maneira como ele se referiu, não só não podem ser sentimentais, como devem ser julgadores em certa medida. Para ele, era responsabilidade do amigo ajudar o outro a adquirir autodomínio. ”

Nos capítulos seguintes que finalizaram a obra fala sobre a continuação de seu trabalho que adentrou universidades e escolas públicas onde a Filosofia reconquistou seu status dentro do currículo escolar e acadêmico. O encontro de sua amada esposa Cecília e companheira até hoje e que o ajudou na escrita desse livro.

Ele nos conta como começou a estudar Filosofia. Descobrimos que sua mãe contribuíra muito com seu espírito questionador. Ela deixava que ele perguntasse a vontade e não dava respostas prontas e sim o levara a buscar suas próprias respostas. Sabemos que ele começara a estudar filosofia sozinho aos 12 anos. Nisso eu pareço com ele comecei a ler livros de Filosofia e Ciências Sociais aos 13 anos e nunca mais parei de querer mais e mais livros e pessoas que trabalhem nessas áreas. Por isso me identifiquei tanto com o livro. Muitas das ideias trabalhadas aqui fazem parte dos meus pensamentos e questionamentos inquietantes dentro de mim. Um espírito socrático está dentro de mim e como Phillips diz “necessita de liberdade”.

Esse é um livro sem distinção de área. Aberto para qualquer pessoa ler. Uma apresentação fenomenal da Filosofia para os amantes da área ou aqueles que acham que Filosofia é besteira e perda de tempo. Falo que perda de tempo é ser ovelha nas mãos dos lobos. Como diria Nietzsche “marionete nas mãos dos grandes brincantes”. Como ser um leão domado por suas presas. Viver sem fazer perguntas é impossível. Como Sócrates mostrara com sua morte é que viver sem questionamentos, inquietação e curiosidade é impossível para a Humanidade. Não poderia ir contra sua natureza.

Beba esse café quente com uma deliciosa torrada da Filosofia e abra seu apetite para o alvorecer das perguntas.

Conforme Richard Tarnas coloca, para Sócrates, “ a descoberta da ignorância era só o começo da terra filosófica”, não a fim. Depois de descobrir a ignorância, pode-se “começar a superar os pressupostos aceitos os quais obscurecem a verdadeira natureza do que era ser um ser humano. “





Um comentário:

  1. Adorei a resenha bem profundo e muito refletivo o livro.
    Muitos Livros e Sucesso!
    Beijos!

    http://booksmagiclove.blogspot.com.br/

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