.5 de jun de 2015

Rompimento - Joanice Oliveira


Noite fria que castigava meu corpo com rachados fortes do vento úmido que circulava pela cidade naquele dia qualquer de inverno.

Eu não estava a fim de sair para balada. Não queria encarar o mundo após um belo pé- na bunda. Coincidentemente conheci meu ex numa noite fria como hoje. Ele era meu ponto fraco. Tinha se tornado meu lar e me expulsara agora. Idiota.

Decide sair só para deixar que minha amiga me tratasse como coitadinha. Será que ela não sabe que todos os dias as pessoas terminam e começam relacionamentos? Que não morrem só porque acabou algo. Encerrou-se um ciclo e começa outro. Mentira. Eu estava mal. Muito mal por sinal, mas não queria palavras de consolo.

Ninguém sabia as lágrimas pesadas que estão prontas a cair detrás de olhos carregados de sombra rosa com rímel preto e lápis de olho mais preto ainda. Eu estava usando uma máscara. Não era eu. Era alguém que resolvi tirar do guarda-roupa e usar naquele dia. A mulher abandonada pelo namorado, não queria sair de casa, então tive que chamar outra.

Eu estava linda naquele vestido preto curto e que valorizava meu corpo. O mesmo vestido que meu ex gostava de me ver. Não para todos verem. Só para ele. Eu gostava disso. Gostava de ser dele. Não no sentido de posse. No sentido de ter sido conquistada. Ele venceu muitos concorrentes. Nem tantos, mas venceu. Agora me deixou. Drogas, eu te odeio.

Eu estava de salto alto vermelho. Uns 15 centímetros. Eu tinha que chamar atenção naquele dia. Solidão e isolamento não eram boas companhias em uma festa. Eu tinha que ser o centro das atenções. Mesmo que isso me custasse minha honra. De nada valia ela naquele lugar.

Luzes piscavam freneticamente no ambiente. Música alta e pessoas suadas e bem próximas dançavam loucamente. Sentia-se o cheiro de álcool em todo o lugar. Fiquei enjoada. Queria ir embora. Minha amiga não quis. Ela era linda, mas pouco enxergava que eu precisava apenas de paz. Tinha uma guerra dentro de mim e ela tinha me deixado fora do caos sem eu querer.

Perdida naquele ambiente as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto sem eu conseguir impedir. Fraca. Isso que eu era. Fui abandonada. Como não percebi que ele estava saindo fora do nosso namoro? Como não vi que ele estava me traindo? Fui cega. Não queria mais amar. Isso era tolice, mas era meu anseio para agora. Quero fugir daqui.

Desviei de alguns rapazes que não percebiam meu estado e só falavam de seus dotes físicos. Não pensavam que suas barrigas-tanquinhos não seriam úteis no meio de uma briga cotidiana. Que suas pernas definidas não seriam bem-vindas numa temporada de TPM ou gravidez. Não era o corpo atlético que mantinha a beleza dos relacionamentos, mas as emoções e sentimentos. Era a convivência. Tudo que éramos no íntimo.  Isso era importante. A beleza que está escondida dentro de um baú no âmago do nosso ser. Só quando amamos encontramos esse tesouro.

Agora senti uma mão suave apertando minha mão e me puxando para perto de si. Era ele. Meus sentimentos se misturam e me deixaram sem ar. Eu estava perplexa. Fazia 5 meses que tínhamos terminado. Eu o via sempre na universidade. Ele tentava contato. Eu destruí tudo que ele me dera. Não queria laços com o traidor. Ele estava chorando. Por que? Por que estava me olhando como no dia que se declarou apaixonado por mim? Aquele olhar tão sincero e pedinte de amor e atenção estavam novamente na minha frente. Eu não conseguiria fugir dele. Eu queria está presa a ele. Tudo em mim exigia ele. Não era complemento que eu queria. Era Transbordamento.

Ele podia ser o motivo de minha dor, mas era maior ainda o motivo de saber o que era Amor. Só com ele achei o sentido da minha existência. Ele era tudo. Meu corpo estava quente. Minhas lágrimas começaram a cair sem medo. Eu não estava mais com a máscara. Era eu. Desnuda. Nua com ele estava. Ele se aproximou de mim e abraçou-me fortemente. Éramos um só novamente. Eu já o perdoará há muito tempo. Meu amor era maior do que qualquer sentimento perdido.

Ela me beijou intensamente. Eu estava viva novamente. A chama dentro de mim novamente se acendeu. Ele era outro homem. Sem promessas. Agora só ações. Perdera quem o amava de verdade por suas atitudes impulsivas. Aprendera. Era meu. Totalidade. Plenitude.

Transbordamos. Sem ausência. Inteiros. Novos para um Recomeço. Seríamos julgados. Não me importava. O amor tudo suporta. Não era tolice. Era Amor. Sem explicações. Tornei-me novamente dele. Nossos corpos se uniram novamente em uma madrugada frenética onde estávamos insaciáveis um do outro. Não era carnal. Era a fome de Amor. A ausência causara vazios. Esses foram preenchidos. Dormimos nos braços de Afrodite e ao sorriso sonolento de Orfeu.





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