.13 de out de 2017

[Resenha] Na Escuridão da Floresta - Eliza Wass

Título: Na Escuridão da Floresta
Autora: Eliza Wass
Editora: Verus
Ano: 2017
N° de Páginas: 210

Sinopse:
Castella Cresswell e seus cinco irmãos sabem o que é ser diferente. O mundo deles se resume à casa decrépita da família na escuridão da floresta. Os irmãos obedecem estritamente às leis de Deus, cujas mensagens são transmitidas através de seu pai. Uma delas diz que eles são as únicas pessoas puras na terra e deverão se casar uns com os outros em uma cerimônia divina. Na escola, eles ainda são encarados como os esquisitos de sempre, que aparecem com hematomas inexplicados e vivem em completo isolamento. Até Castley ser obrigada a fazer dupla com George Gray, que oferece a ela um vislumbre do que é uma vida com liberdade e opções. O mundo de Castley rapidamente se expande para além da floresta que ela conhece tão bem e das crenças que um dia ela pensou serem as únicas verdades. Há um futuro esperando por ela se conseguir escapar das garras de seu pai, mas a garota se recusa a deixar os irmãos para trás. E, justo quando ela começa a bolar um plano, seu pai faz um anúncio arrepiante: os Cresswell em breve retornarão para seu lar no paraíso. Com o tempo se esgotando, Castley precisa arrumar um jeito de expor toda a extensão da loucura de seu pai. A floresta manteve a verdade no escuro por muito tempo, e agora Castley pode ser a última esperança de salvação para os irmãos Cresswell.

 “Você não acredita. Finalmente admitiu. E é a pior coisa que já lhe aconteceu.”



Na Escuridão da Floresta é um thriller que mostra que podemos ultrapassar os limites do certo e errado quando acreditamos em algo sem avaliar os riscos e a verdade e as consequências que levaram a Família Cresswell ao caos.


Castley Cresswell é uma adolescente de 17 anos que sempre sonhou ser uma garota normal e que pudesse escolher sozinha tudo que quisesse, mas ser um Cresswell tem um custo. É muito alto e ela e seus irmãos: Caspar, Mortimer, Jerusalem, Hannan e Delvive não tiveram a oportunidade de escolher quem queriam ser. Seu pai, o patriarca daquela família, escolheu por eles.

Caspar é o pupilo de seu pai. Não consegue mentir e muito menos acobertar o que seus irmãos fazem. É tão perfeito que desperta a repulsa dos seus irmãos, mas como aquela família é “especial e perfeita aos olhos de Deus”, ninguém demonstra qualquer sentimento adverso aos dons do espírito. Ele é considerado a reencarnação do primogênito dos filhos que morrera ainda pequeno. O jovem se pune sozinho quando pensa em algo pecaminoso e até adentra sozinho aos “Aposentos de Deus” – um buraco de esgoto na floresta que o pai deles usa para “discipliná-los” – para refletir sobre seus atos. Isso nunca foi lógico para Castley.

Na escola todos eles são vistos como estranhos e esquisitos. Ninguém gosta de estar ao lado deles, porque sabem do enclasuramento que vivem por causa do pai extremamente religioso. Isso sempre doloroso para Castley, porém não poderia expressar isso claramente, já que “Deus” poderia puni-la como seu pai constantemente falava a todos. Qualquer deslize e poderia perder seu lugar no “Paraíso”. Isso assombrava os pensamentos dela e não conseguia seguir com seus anseios.

Eles somente foram matriculados na escola quando Mortimer – o mais encrenqueiro e rebelde deles – se envolveu num acidente – que tenho certeza que foi o pai que o espancou – e foi acudido pelo vizinho Michael que o levou para o hospital para aliviar o machucado na clavícula e os abusos paternos foram expostos e as crianças obrigadas a ir para escola, já que seu pai dizia que eram “estudos do diabo” que davam nas escolas mundanas.

Os dias da prole Cresswell se resumiam a irem para a escola e se alimentarem melhor, pois em casa não havia comida suficiente, porque o pai deles não trabalhava e acreditava na “providência divina” para tudo. Eles negociaram com a professora de culinária para ficarem com as sobras. Depois não poderiam ficar muito tempo na escola, porque atividades extracurriculares não eram toleradas pelo pai. Castley e Mortimer não cumpriam essa regra. Ela estudava teatro e gostava do que fazia. Mortimer vagava pelas ruas e fazia coisas que nunca seriam aprovadas em sua casa. Era o modo de mostrarem que não acreditavam no que seu pai teimava em ensinar.

“Quando você está suspenso por um fio, só percebe quando o fio começa a se partir.”

As coisas mudam drasticamente quando Mortimer é pego roubando – eles furtam sempre – uma pasta para herpes e é condenado – novamente – para os “Aposentos de Deus” e Castley ver que aquilo nunca soará correto. Seu pai é um monstro. Sua mãe não parecia mais viva e nunca intervia em nada. Seu irmão Caspar – mais perturbado de todos – apanhara até a exaustão por simplesmente está apaixonado pela enteada do vizinho. Seu pai sempre fora um louco e somente agora com as escapulidas da jovem é que a verdade viera à tona. Algo devia ser feito para o pior não acontecer.

A tensão se instala na casa dos Cresswell. Todos escondem segredos. Mortimer está enlouquecendo com suas brigas com Caspar. Os dois escondem algo perigoso. Hannan – o mais velho – parece cego com o pai. Apenas Castley pode mudar aquilo e é isso que acontece quando... tudo muda e...

Esse livro é extremamente forte e bem articulado. A autora demonstra coerência e aprofundamento na questão de crenças. Ela não critica ser religioso, mas o ato do extremismo, porque quando acreditamos fielmente em algo, temos a tendência natural de perdemos o senso de certo e errado e transformamos tudo em perigo eminente e uma perseguição sem sentido dos outros por nós. É isso que os Cresswell sofrem. A loucura tomou seu pai e se instalou na penúria daquela família.

“Porque é uma coisa boa, e eu acho que as pessoas não têm muito o hábito de falar coisas boas. Elas pensam, mas não dizem. E deveriam. Acho que o mundo seria um lugar bem melhor se elas fizessem isso.”

O patriarca da família é tudo menos humano. No passado ele pode ter sido carinhoso, amoroso, um homem aberto e centrado, mas hoje é um ditador e religioso extremista. Quase um profeta em pleno século XXI. Tudo para ele é “mensagem de Deus”. Qualquer deslize e seus filhos serão castigados pelos seus pecados. Oração e não contato com as pessoas da cidade é o mantra dele para sua prole. Um erro e a violência é jogada no corpo de Castley, Mortimer, Caspar, Baby V – Jerusalem, Delvive e Hannan.

Eu odiei esse homem no momento que comecei a ler a história dos Cresswell contada por Castley. Ele usa a “Palavra de Deus” em vão e tudo que fala é para beneficio próprio. Qualquer pessoa que utiliza de palavras sagradas para coagir alguém é egocêntrica e argilosa. Ela simplesmente quer que seus caprichos sejam atendidos e quando vê rebeldia, é com crueldade que responde.



Castley é inteligente, sagaz e intuitiva. Ela é a primeira pessoa na família que coloca suas dúvidas para fora. Ela não aceita mais seu pai decidir por eles. Não suporta mais as pessoas lhe olharem com piedade e outras com medo e ar de superioridade. Ela busca por resposta e se depara com o medo mais humano possível: o medo de desacreditar em tudo que lhe ensinaram. Ela é mais forte do que acreditava ser e somente quando se perde é se encontra em si mesmo e liberta a todos.

“Uma pessoa sólida, mais forte do que eu jamais poderia ter imaginado. Uma pessoa que podia fazer qualquer coisa. Uma pessoa completamente destemida.”

Caspar é considerado um “deus” para os irmãos, porque sempre é sincero, reto e íntegro. Isso é o que eles veem, porém não é a verdade. Ele é apenas um jovem de 16 anos perdido na religiosidade que seu pai impôs na casa e esconde seus desejos naturais e principalmente seus sonhos carnais com Amity, a filha do vizinho.

Mortimer é o personagem mais contraditório dessa família incomum. No início ele é rebelde e faz coisas que sempre o colocam em punição diária, mas depois de como “um passe de mágica”, ele começa a acreditar nos sonhos reveladores do pai e na proximidade do “Paraíso”. Ele mais teme sofrer com agressões depois de ver seu irmão Caspar quase morto com chutes dado pelo homem “santo” que administrava aquela família.

A mãe dele é um espectro. Perdeu a beleza e a jovialidade estando do lado de um homem louco e desenfreado e as poucas vezes que fala é com agressividade e infelicidade em suas palavras. É vítima da escolha que teve no passado, mas ama seus filhos e demonstra isso no final.

A construção narrativa desse livro se assemelha muito com Proibido e Mentirosos que falam de família, moral e dogmas religiosos. O pai da família Cresswell acredita que seus filhos se casarão entre si para conservarem a unicidade daquele lar. Ele acredita que são santos e os outros enviados pelo diabo. O que ele faz com os filhos é tão doloroso que cheguei a estremecer com tamanha brutalidade. Torci diversas vezes que ele morresse comendo, andando e esbarrasse com algo. Queria ver aquelas crianças livres do sofrimento que foi ter nascido ali.

É bruto, cruel e insano esse enredo. Não é feito para pessoas acostumadas a serem lideradas e deixarem suas escolhas nas mãos alheias. É uma história para mostrar que somente nós mesmos podemos pensar por si próprios. Não há coerência em se subordinar para uma “espera divina”. O Agora precisa de nosso agir. Crer em algo divino é uma construção social e não imposta. Deixar de acreditar em uma “Força Suprema” não faz de ninguém fraco, mas faz dela, uma pessoa coerente com seus valores e conhecimentos.

A capa é bem infantil, mas caiu bem com a história em si. A fonte é agradável.

Na Escuridão da Floresta é um drama desconstrutivo que tem o objetivo de chocar o leitor e o levar a repensar em suas crenças e refletir se realmente tem vivido de acordo com suas escolhas ou deixado que outros controlem seus passos.

“Algumas pessoas podem ser bonitas ou falar bonito, mas é o que elas fazem que nos indica se merecem ou não nosso tempo. É o que elas fazem que nos indica se merecem nossa fé.”


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